A Definição de Terrorismo

Como a ciência e a pesquisa acadêmica definem e mensuram o fenômeno do terrorismo, utilizando como base a metodologia do Global Terrorism Database (GTD), conforme analisado pela organização Our World in Data.

A Métrica do Medo: Como o Terrorismo é Definido e Medido

Definir terrorismo é um dos maiores desafios para pesquisadores, pois o fenômeno frequentemente se confunde com outras formas de violência política ou crimes comuns. Para trazer clareza e dados estatísticos ao debate, o Global Terrorism Database (GTD) — mantido pelo consórcio START na Universidade de Maryland — estabeleceu critérios rigorosos que servem de base para a maior parte das análises globais contemporâneas.

Os Critérios Fundamentais da Definição

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Segundo o GTD, um ataque terrorista é definido como a ameaça ou o uso de violência para alcançar um objetivo político, econômico, religioso ou social, por meio de intimidação ou coerção, realizado por um ator não estatal.

Para que um evento seja catalogado como terrorismo nesta base de dados, ele deve obrigatoriamente cumprir três condições:

Intencionalidade

O ato deve ser o resultado de um cálculo consciente dos perpetradores.

Violência

Deve envolver o uso ou a ameaça de violência física contra pessoas ou propriedades.

Atores Não Estatais

Os perpetradores não podem ser agentes oficiais de um Estado.

Além desses, o evento precisa atender a pelo menos dois dos três sub-critérios abaixo para ser distinguido de outros crimes:

1. Objetivo Específico:

A ação visa um objetivo político, econômico, religioso ou social (mudanças sistêmicas, não apenas lucro pessoal).

2. Intimidação Ampliada

O ato busca coagir ou intimidar uma audiência muito maior do que as vítimas imediatas.

3. Alvos Civis

A ação deve estar fora dos parâmetros do direito internacional humanitário, focando deliberadamente em civis ou não combatentes.

Por que essa métrica importa?

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A análise desses critérios revela que o terrorismo é, fundamentalmente, uma estratégia de comunicação violenta. Enquanto um homicídio comum termina na morte da vítima, o ato terrorista começa na morte da vítima para enviar uma mensagem a um governo ou sociedade.

Essa distinção é crucial para o monitoramento realizado pelo LAST Brazil. Ao focar no “objetivo sistêmico”, conseguimos separar o ruído da criminalidade comum da radicalização ideológica. O GTD é inclusivo: ele registra ataques mesmo que falhem (tentativas) e inclui danos a infraestruturas, reconhecendo que a sabotagem econômica também é uma forma de terror.

Metodologia de Captura de Dados

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O processo de transformar notícias em dados é complexo. O GTD utiliza processamento de linguagem natural (IA) para filtrar mais de um milhão de artigos de mídia publicados diariamente, selecionando entre 8.000 e 16.000 textos relevantes por mês. Esses textos são então revisados por equipes humanas especializadas que codificam características como localização, táticas e alvos.

Limitações e Forças da Abordagem

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Como todo sistema de medição, o GTD possui nuances que o analista deve considerar:

Viés de Mídia

Como os dados dependem de relatos jornalísticos, ataques em zonas remotas ou países com pouca liberdade de imprensa podem ser subnotificados.

Exclusão do Estado

O GTD foca exclusivamente em atores não estatais. Isso significa que a repressão violenta exercida por governos contra seus próprios civis não é classificada como “terrorismo” dentro desta base específica, sendo categorizada sob outros ramos da ciência política.

Flexibilidade

A grande força deste modelo é permitir que usuários filtrem os dados. Se um pesquisador não considera “ataques à propriedade” como terrorismo, ele pode ajustar o dataset para refletir sua própria definição.